quinta-feira, 24 de abril de 2014

Aula 9 - O feminino, o amor e o real em Clarice Lispector




Aula 9
24/04/2014
O feminino, o amor e o real em Clarice Lispector

"Mas é que eu também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E - se a realidade é mesmo que nada existiu?! quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto? o resto não existiu."

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H. p. 18

É extremamente difícil para o sujeito quando a potência do pensamento pode se tornar negativa. Se a dor da imaginação desconhece limites, então o sofrimento neurótico não se ampara em mais nada a não ser numa parca esperança. A angústia toma conta quando a dúvida sobre a existência impera sobre que direção  tomar na vida.
G.H. procura uma forma. Uma forma talvez humanizável. É. Talvez seja exatamente isto. Ela procura uma forma que lhe dê consistência imaginária para garantir proteção ao seu desamparo. A forma é tátil. Através da forma pode-se ter a dimensão daquilo que se é, se tem ou se perdeu. Se não for assim, como poder procurar por algo que não se conhece? Como poder se re-encontrar?
Por isso que "sem dar uma forma, nada me existe". A forma é a parte humanizável de sua perna-sintoma que se perdeu. Talvez fora melhor achar que nada existiu. Se for assim acaba-se passado, presente e futuro e o agora é o bastante para recuperar a vida.
"quem sabe nada me aconteceu?" O acontecimento é da ordem do fenômeno e, novamente, da forma e da consistência. Bichat, um antigo psiquiatra, dizia que 'a saúde é o silêncio dos órgãos.' Ora, o fenômeno faz crível a existência do humano. Existirmos, a que será que se destina? pergunta-se Caetano.
E se nada tiver acontecido ainda se teria a terceira perna? E sua sustentabilidade estaria garantida? Quando há o surgimento do real não há como se voltar atrás. Pode haver remorso, reminiscências, lembranças encobridoras, retorno do recalcado, mas depois que o fenômeno acontece o que se quer é dar uma forma para que ele se torne menos fantasmagórico. A fantasia fundamental esconde-se por detrás da ausência de forma. Do pai ao pior, diz Lacan. A tela da fantasia emoldura uma voz sem forma. É o Outro que não existe, mas que faz sua entrada interrogando o sujeito com uma pergunta que não existe.
Entre a compreensão e o acontecimento há um fosso: barreira intransponível de um gozo do qual ela não sabe se livrar. Entre a não compreensão e o não acontecimento há apaziguamento, mas isto é justo o que não há.
O que há é um resto. Objeto 'a', inassimilável. Inassimilável, porém retorna com insistência em sua forma imperativa de gozo: compulsão à repetição. Pulsão de morte.
"O que sei do resto? o resto não existiu."
Travessia.  

Um comentário:

sub helena disse...

Amo as obras de Clarice Lispector. Ela, apresenta sim, esse quê de insatisfação diante do mundo e das respostas sem graça que ele lhe apresentava. Acho que por isso suas obras eram repletas de fome por questionamentos, uma procura contínua por ela mesma e por uma forte obsessão pela alegiaXtristeza, solidãoXmultidão, amorXsolidão, expressava de forma enérgica sua posição de incompleta no mundo. Sinto assim e adorei o seu Post, beijo, sub helena.