domingo, 13 de outubro de 2013

Intertranças - Angola com Ondjaki, José Eduardo Agualusa e Pepetela

 

Ressonâncias do debate com Bruno Garcia sobre três autores angolanos:
Ondjaki - Os da minha rua - Língua geral
José Eduardo Agualusa - As mulheres do meu pai - Língua Geral
Pepetela - A Geração da Utopia - Leya

Bruno Garcia, historiador, falou sobre a Angola política e histórica tendo por base os três livros como referência.

Eu comentei os livros a partir de três pontos que se trançam:
1) As palavras, a linguagem e a língua portuguesa.
2) Os personagens, as histórias e seus autores
3) O país: Angola.

O livro "Os da minha rua" o narrador é um menino que tocado pela emoção da descoberta do novo vai relatando os acontecimentos, as frustrações e a alegria com o mundo em que vive. Há um certo gosto de despedida da infância escrito com lirismo e poesia. O espanto diante do mundo, tal como os antigos filósofos, é descrito com suavidade na observância de pequenos fatos e objetos da vida quotidiana.

"As mulheres do meu pai" de José Eduardo Agualusa tece uma fina trama entre ficção e realidade. Clarice Lispector certa vez escreveu que quanto mais ela escrevia ficção mais ela se aproximava da realidade e quanto mais real mais ficcional era seu texto. O romance de Agualusa tange todo o tempo a realidade e a ficção. 
Na verdade, o livro é sobre a busca por um pai. O que é um pai? indaga-se Freud. A busca por um pai não se aproximaria da procura de uma verdade? Uma verdade que responda aos enigmas da vida?
Laurentina, diretora de cinema e documentarista, tenta reconstruir a atribulada vida de seu pai Faustino Manso. Há ressonância dos nomes não deixam dúvidas de uma certa ironia. Faustino Manso que deixou sete viúvas e 18 filhos não era nada manso e sua vida aproxima-se de Fausto, o venturoso. Ao longo do texto ela descobre que Faustino Manso, seu pai, é estéril. Portanto, a indagação continua: quem é seu pai? E que homem era este que "engravidava" mulheres sendo estéril?
O tema da procura do pai é recorrente em livros e filmes, mas a maneira como é tratada aqui vale a leitura.

"A Geração da Utopia" é dividido em 4 partes.
1) A casa - 1961 Os jovens intelectuais angolanos estudam em Lisboa e planejam retornar ao seu país para libertarem da colonização portuguesa.
2) A chana - 1972 Trata da guerrilha e dos horrores da fome e da morte
3) O polvo 1982 Os medos da infância, a fome e o "caçador" de peixes. O polvo como um fantasma infantil de devoração. A mãe pátria?
4) O templo - 1991 A religião como outra utopia. A frustração com a libertação de Angola do jugo português. Os antigos companheiros politizados e de esquerda tornaram-se corruptos quando chegaram ao poder. "Dominus", a nova igreja, salvará a todos. Aqui há uma estreita aproximação com o que acontece no Brasil. 
O livro não tem fim, pois começa com um "portanto, só os ciclos são eternos". então, a história ainda não terminou. 


Os três temas são universais: 
1) O olhar da criança sobre o mundo
2) A utopia como processo de re-construção de um país e a formação de seus jovens.
3) A busca por um pai. 

Como disse José Saramago, "todas as noites mais de 200 milhões de pessoas sonham em português." 

Então, que sonhem com uma Angola sem guerras
Sonhem com uma Moçambique sem fome
Sonhem com um Brasil sem corrupção
Sonhem com um Portugal sem desempregos
Sonhem com um Timor-Leste sem minas de guerra pelo chão
Sonhem com uma Guiné-Bissau mais justa
Sonhem com um Cabo Verde mais próspero e sem tantas misérias
Sonhem com um São Tomé e Príncipe mais livre e,
Sonhem com Macau mais próximo da língua portuguesa. 



2 comentários:

VW Nonno disse...

Coisa linda seu texto, Carlos. Me trouxe lágrimas aos olhos e o pesar de não ter estado lá> bjs Vivian

Carlos Eduardo Leal disse...

Obrigado pelo carinho de tua sensível leitura, Vivian. BJ