domingo, 18 de março de 2012

Arqueologia da Memória

 

Estava só em meu sorriso quando senti a tua presença. Meu coração desatou a correr como um bólido pelos campos da fertilidade perdida. O sangue percorreu meu corpo resgatando as cores e os cheiros da adolescência. Senti pulsar o mundo como um vulcão a jorrar suas lavas pela primeira vez rompendo o hímen da terra virgem.
A sala em penumbras. Coloquei o nosso preferido da Nina Simone. Deixei apenas um fundo musical. Abri um tinto. Teu perfume invadia aposentos adormecidos pela memória. Abri as janelas e deixei a brisa da noite entrar. A lua tremeluzia entre nuvens, alva como recendia tua pele. Acendi um havana que havia guardado para ocasiões como esta. Havia festa novamente em mim. 
Voltei à minha poltrona. Tomei nas mãos trêmulas o livro que me esperava aberto. A luminosidade amarela do abajur fraquejava a memória.
Após mais de oitenta anos voltei a sentir um lampejo de felicidade na memória olvidada. Meus olhos, ainda brilhantes pelo ocorrido, voltaram a repousar sobre Álvaro de Campos: "vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir."

4 comentários:

rosi disse...

Lindo!!! Alvaro Campos na "passagem das horas" (...)Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.(...).
Perfeito!!! Bj

rosi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
rosi disse...

Por incrível que pareça estava a ler isso hoje pela manhã(A passagem das horas - de Álvaro de Campos)Belo!
Fernando Pessoa e seus heterônimos...amo!!!

Marta disse...

lindo, Carlos! muito lindo!