quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Um trem de genealogias


José Bonifácio acordava todo dia às duas da manhã. Fazia seu próprio café e comia o bolo de fubá da noite anterior àquele dia. Esta era sua refeição para o dia inteiro. Dizia não precisar de mais. JB era foguista do Vitória-Minas. Trem sestroso, fogoso, diria rindo desdentado o próprio José Bonifácio. Quando chegava à estação, fazia mais do que verificar a lenha e o carvão para a viagem. Ele mesmo se encarregava de vistoriar cada um dos seis vagões de passageiros e os duzentos e sessenta e oito vagões que seriam carregados de minério de ferro. Era viagem para dia inteiro. Tudo tinha que estar em seu lugar para que a vida não descarrilasse, solfejava JB, filosofando.
Mas eis que certo dia a madrugada acordou chuvosa. Ou era o próprio José Bonifácio que perdera a graça no viver? Os filhos haviam casado, a mulher havia voltado para a casa dos pais na Bahia, e ele ficara de resto, como um peixe que esqueceu de subir o rio para desovar.
Pois foi na descida da serra que se deu seu grande feito. O trem já vinha embalado com suas composições serpenteando o vale que marcava a divisa de Minas para Vitória, quando teve uma ideia inusitada. O fogo ardia bem ali na sua frente. Resolveu ser ele próprio o combustível daquela composição. Queimaria pela última vez seus próprios despojos.
E foi destacando as partes de seu corpo. Primeiro retirou os pés que eram iguais ao do avô materno. Depois as coxas que eram muito semelhantes as de seu pai. Retirou os órgãos sexuais: bela lembrança arqueológica paterna. Tudo agora ardia no fogo. Deslocou a bacia, fez um torção e lá se foram as costelas também. Um olhar pela pequena janela e pode constatar como a composição ganhava velocidade jamais pensada. O fogo ria alto, sem tréguas. Desatarrachou o braço forte esquerdo e longilíneo, marca registrada do avô paterno. Jogou com leveza para dentro da fornalha. Ali se queimavam genealogias. Lembranças atávicas, suspiros feitos tantas e tantas vezes na rota da saudade. Retirou a cabeça, intacta. O crânio, não havia dúvidas, era de sua mãe. Jogou certeiro no meio do fogo. Viu que seus olhos lançaram-lhe o último olhar de despedida. Mas não havia dor ou mágoa. Por fim, antes de retirar o tórax, enfiou sua mão para dentro de si mesmo e arrancou seu coração ainda pulsante. Jogou o tórax para dentro da fornalha e, num último gesto, antes de jogar o próprio braço, jogou seu coração pela pequena janela do trem. O coração rodopiou feito pipa no ar antes de desaparecer.
Nesta hora o trem passava por cima de uma ponte com um pequeno vilarejo embaixo. O coração caiu no colo de Maria, a bordadeira solitária. Ela olhou aquele coração ainda vivo e o bordou no canto do pano de prato.
Hoje, quem passa pelo vilarejo, encontra Maria sorrindo, enigmática, rodeada de filhos do coração.

11 comentários:

Celina Beatriz Villanova disse...

Mágico! Adorei...
Beijos literários

Nina Blue disse...

Teu texto é um trem bom pra se pensar...

Anne M. Moor disse...

Aiiiiii que delícia! E coração cair no colo é muitas vezes estarrecedor!! rsrsrsrsrs

Beijos e bom final de semana longa :-)
Anne

Mabel disse...

CEL,
Seus textos conseguem mostrar de forma insólita, por lindas metáforas como estar na vida pode ser algo ilimitadp, de possibilidades infinitas...
Quando o caminho do J. Bonifácio parecia fim de linha, ele empreendeu uma nova viagem, que realimentou vidas alheias... lindo...
Falando em genealogias, tenho a experiência de ter tido avós muito longevos,de mais de 90, que genuinamente nunca se sentiram velhos... é uma escola para quem acha que tudo está
posto...
Bjs,
Mabel

Ana Carolina Nunes disse...

Adorei o coração bordado no canto do pano de prato. Lindo texto...
Bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Ana,
Mas eu gostei ainda mais de seu outro comentário lá no FB: "Nada como um colo para um coração". Vc entendeu o 'espírito' do texto... bjs

Raquel disse...

Nada pode doer mais que arrancar o próprio coração...

Beijos

Ana Carolina Nunes disse...

Tb gostei mais do meu comentário de lá... quero mais textos pra sentir seus "espíritos": então escreva, escreva e escreva. Bjss

Maria Regina disse...

Achei lindo e enigmático seu conto. Fiquei refletindo em suas palavras visualizei em cada parte de nós um pouco da herança de nossos ancestrais, mas, quando cheguei ao coração, vi algo essencialmente nosso. Como em seu conto, ficou uma pausa para pensar: O coração seria o único pedaço realmente nosso, livre de qualquer interferência familiar, mas a parte que nos dá a oportunidade de nos eternizar em nossos filhos?
Um abraço

Adriana disse...

Eduardo, quanto tempo não passava por aqui!
Foi uma bela surpresa encontrar José Bonifácio saindo dos trilhos, "enveredando-se" por bordados desconhecidos, mas guiado pelo coração!
Lindissima imagem!
Um abraço grande,
Adriana.

Kaligia Cristina disse...

Que texto professor!!! Lindo e realmente enigmático.
Adorei.
bjs!!!