sábado, 18 de setembro de 2010

Livia, a folha


Livia nascera numa inquieta manhã de primavera. O vento assobiava fininho como o uivo de uma criança que ralou seus joelhos. E era entre os galhos mais apertados que se ouvia no, ao longe, os filhotes de um ninho que teimava em não cair.
Livia era pequenina como as centenas de seus irmãos e irmãs quando nasceram daquela majestosa árvore que reinava solitária no meio de um imenso capinzal. Verde, viçosa, espreguiçava-se a cada dia reparando com seus olhinhos perscrutadores, tudo o que havia à sua volta: um pequeno riacho entre pedras serpenteava mais afoito após cada noite de sereno e chuva fina; uma touceira de bambu tingia de verde-escuro sua vista um pouco a leste; no alto da colina, um pouco mais ao sul, estava plantada a casa de seus donos. Plantada sim, pois no pensamento das árvores, tudo devia existir como elas. As pedras e as montanhas, o sol, a lua, as estrelas e mesmo as nuvens eram plantadas. É verdade que algumas destas plantas duravam pouco tempo, como as plantas-nuvens. Livia achava graça disto tudo. Daqueles seres plantados que andavam, Livia ainda não tinha tido nenhuma visão. Eram pessoas simples - ela sabia por causa de seus irmãs folhas-mais-velhas e seus tios galhos - que viviam da horta, galinhas e uma meia dúzia de vacas que, no cansaço do sol, procuravam a sombra produzida para esquecerem do calor.
Livia crescia rápido aproveitando a luminosidade informal da primavera e a chuva ocasional que lhe favorecia por estar num dos galhos mais altos de onde tinha uma visão privilegiada de todo o mundo. O mundo existia em Livia e ela adorava a seiva que alimentava seus sonhos sazonais, feitos de pássaros, raios de sol, ventos e nuvens noturnas.
Certo dia ela viu. Era a primeira vez que via. Abriu bem seus olhos por entre suas ranhuras. Esguichou-se toda por cima de outras folhas. Lá vinha o pequeno rebanho. Eram vacas holandesas, gorduchas-leiteiras. E, logo atrás, com uma varinha feita de oiti (ela reconheceria de longe), um menino de seus oito anos. Não batia nas vacas. Apenas levantava a varinha - como se fosse mágica - dava uns gritos ôôôô - e chamava cada uma pelo seu nome. Livia chegou a ouvir: Mimosa, Carambola, Azeitona..., mas o vento mudou súbito de direção e não conseguiu mais ouvir o nome entoado das outras. Eles se chegavam, suados, cansados de pastarem. Pediam por sombra e Livia entendeu de imediato que poderia ser parte do frescor que procuravam. Encheu-se de orgulho por que, pela primeira vez, iria participar de tão sombrinha causa.
Quando todos já estavam debaixo da árvore, Livia quis ser mais. Queria ser toda a árvore. Então, esforçou-se por ser maior. Procurou pela seiva que havia acumulado num tronco logo abaixo dela. E, num esforço arbóreo para buscar mais seiva, acabou, por uma destas infelicidades, por soltar-se do galho que delicadamente a prendia.
E voou. Sentiu o gosto de ser livre. Mas pagava um preço sem retorno. Desprendera-se para sempre. E o vento, caprichoso, levava-a de um lado para outro. Ora encostando nos galhos, ora despedindo-se de suas irmãs, que atônitas, olhavam sua queda.
Mas o destino quis que ela fosse cair justo no colo de André, o menino que tirava sua merecida sesta. Ele levou um susto com a folha em seu colo. Pegou-a e, instintivamente, jogou no chão. Livia ficou ali olhando o céu azul através de suas irmãs. Estivera tão próxima dele. Agora jazia entre outras folhas já mortas. E, pela primeira vez, chorou. Entendeu que a morte a acolhia, fria, como futuro adubo.
André levantou. Era hora de reconduzir o gado para o curral. Mas ele olhou para aquela folha que havia caído em seu colo. Reverenciou-se num gesto oriental e colheu Livia de seu desprendimento. Levou-a pelas mãos com carinho como se carregasse um bolo de fubá quentinho feito pela sua bisavó. Ao chegar em casa foi direto para seu quarto. Procurou pela sua coleção de Monteiro Lobato que ele carregaria por toda sua vida. Abriu nos Doze trabalhos de Hércules e, carinhosamente, depositou Livia entre as páginas 198 e 199.
Muito tempo havia se passado e André continuava fascinado por aquela coleção de Monteiro Lobato. E, sempre que chegava naquelas páginas, ele acrescentava aos feitos de seu herói, a história de Livia: uma folha que se juntou a outras folhas. André lia Livia nas entrelinhas.

6 comentários:

Ana Carolina Nunes disse...

A morte como futuro adubo é uma imagem e tanto, linda metáfora para o renascimento. Adorei o destino de Livia, entre folhas e lida nas entrelinhas...

Bjsss

LuH disse...

Tantas formas de ser e também de renascer...

Estou encantada!!

Foi ótimo passar aqui hj, a história de Lívia adoçou meu coração!

Abç

Claudinha Monteiro disse...

Lívia e o voo de Ícaro, Livia e a Fenix que ressurge das cinzas... muito legal essa mistura de fabula e mito. Gostei mesmo.

Eugenia Ribas Vieira disse...

Querido

Lindo texto. Achei engraçado quando as vacas vieram se aproximando.

Um beijo.

Adriana disse...

Eduardo,
esse conto tem o fôlego infanto-juvenil! Que tal transformá-lo num livro cheio de imagens e verdes e bichos e gente...? O mundo está precisando de tudo isso.
Adorei rever lívia e andré, disfarçados.
Bj
Adriana.

Olívia Comparato disse...

Adorei a(s) postagem(ns)! Fui lendo num crescente. Volto depois para continuar a leitura.
Um forte abraço.