segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Infância nua
















Livia dormia o sonho de ser acolhida. Sua voz era seu pensamento. Desde pequena, abandonada pela mãe e órfã de seu pai, Livia recolhia-se como um grafite nas paredes frias da cidade a fim de que algum transeunte a olhasse e a recolhesse. Em seus sonhos de menina ela vestia uma roupa que não tinha: calça de flanela verde com flores cor de rosa e um agasalho lilás que lhe cobria a cabeça. Enroscava-se num acolhe-dor sofá vermelho e acalentava sonhos de irmãos fugidios que sempre brincavam de ciranda com ela. Mas, ao acordar, ouvia buzinas ferozes, gritos incompreensíveis para sua pequena idade e um ir e vir de pessoas que não significavam nada para ela. Eram eles anônimos ou era ela que havia se tornado invisível aos seres, ditos humanos? Os pés descalços estavam cansados de não ter para onde ir. Ela, na verdade, está nua: de afetos, carinhos e de um colo que a alimente.
Ah, dorme menina. Dorme pobrezinha que em teus sonhos alimenta mais a alma do que quando estás a olhar o mundo que não te vê. Dorme, Livia. Dorme pequenina. Dorme como um feto, recolhida sobre si mesma, pois o mundo parece não querer te dar o acolhimento que precisas para além desta parede. Dorme, pois sempre existirá a esperança que sua mãe passe pela rua e te reconheça em teus sonhos.

Foto de Renata Tucci sobre painel de Gustavo e Otávio Pandolfo (OSGÊMEOS) na parede do MAM-SP.

8 comentários:

Ana Carolina Nunes disse...

Nem direi que isto é lindo, porque seria pouco. Lindos podem ser textos de muitos escritores por aí, mas poucos sabem como plantar palavras. Plantar? Sim, plantar. Após a plantação sempre vem a colheita e dos seus textos sempre é possível colher os frutos que alimentarão meus pensamentos.

"Acolhe-dor", quer coisa mais sensível?

Beijos meus.

mi menor disse...

pronto, ia dizer que fiquei emocionada com este texto e agora duplamente com este comentário de aninha..
também colhi frutos aqui..
muitos beijos

Mabel disse...

CEL,
É muita habilidade tratar de forma tão sensível, certeira e com palavras tão sutis´
uma coisa tão crua.
Poucas palvras, bastante sentido.
A forma como ela vê (sonha) e (não) é vista, mais um grafite na paisagem...
"Acolhe-dor"... muito preciso...
Bjs,
Mabel.

Kaligia Cristina disse...

Nossa!!! As vezes você me estagna com suas palavras, com o seu brincar com elas. As palavras em seus textos escorrem como água em nossas mãos. Lindo professor. Mais uma vez, fico esperando ansiosa o próximo.
Bjs!!!

Vinícius de Oliveira disse...

Muito tocantes as palavras tão sensíveis que dão algum calor a uma coisa tão fria, tão dura, tão puramente solitária.

Anne M. Moor disse...

Tão triste... Quando será que a humanidade vai acordar?

Bjos
Anne

LuH disse...

Passa de algo lindo, vai além...
Delicado e sensível!!
Parabéns

Nina Blue disse...

Palavras tuas, que nos faz pensar,chorar, e querer ainda mais compartilhar.