sexta-feira, 7 de maio de 2010

Noite estrelada


E era só escurecer que Ludmila corria para a janela para ver as estrelas passarem. Desde pequena tinha esta mania. Bem, dizer desde pequena não é lá verdade porque Lud ainda tem seis anos. Mas ela já se considera uma adulta em ver estrelas. Diz conhecer as constelações tão bem quanto as nuvens e quando crescer quer ser olhadora de estrelas.
Quando perguntada porque ela quer ter esta profissão tão 'interessante' ela corre em dizer que alguém tem que cuidar das estrelas para que elas não se percam na imensidão do céu. Será a guardiã das estrelas. "Já chega de dia quando não as vejo e não sei bem o que estão fazendo ou aprontando", diz Lud cheia de si, olhinhos muito vivos, maria chiquinha com prendedores de estrelas prateadas, sempre alegre em seu vestido branco salpicado de estrelinhas azuis e vermelhas.
Lud tinha o privilégio de morar no interior o que propiciava que seus olhinhos estivessem sempre despidos da claridade artificial da civilização. Mas eis que seu pai todo orgulhoso anuncia uma chance em sua carreira e na semana seguinte já estavam de mudança para a cidade grande.
Desde este dia Lud ganhou um quarto em seu apartamento de frente para o viaduto principal. Era tanta luz que a menina não via mais as estrelas. Seus olhos ficaram secos de tristeza. Não, não havia lugar para choro. Choro, ela aprendera que era de emoção ao descobrir uma nova estrela. Agora suas noites haviam perdido o sentido do brilho incerto das estrelas entre as nuvens. Se a lua cheia já era um perigo para sua observação, os faróis eram o caos. Deu para ficar amuada, irritada, mas não dizia o motivo daquele enclausuramento. Nunca havia pensado numa vida sem estrelas e via seu futuro se descortinar num breu ofuscante.
Nunca mais quis usar o vestido de estrelinhas. Nunca mais abriu as janelas. Trocou as estrelas pelos livros. Desandou a ler freneticamente tudo que encontrava pela frente para tentar entender a vida sem uma janela para as estrelas. Era um refúgio sem volta. A cada página lida percebia outros mundos, seres fantásticos nunca imaginados em seu céu agora sem estrelas. Daí pegou a mania de quando estava lendo apertar os olhinhos e das letras fazer suas estrelas. Descobriu que as letras cintilavam como as estrelas em suas noites de sonho.
Assim Lud foi montando uma gigantesca biblioteca: sua infinita galáxia em que ela lia em órbita espiralar cada letra e a transformava numa estrela.
Passados muitos anos ouvi dizer que agora ela cria suas próprias estrelas.
Parece que virou escritora.

5 comentários:

Anne M. Moor disse...

Os livros como janelas cheias de estrelas variadas... êta vida boa!!!

Beijos
Anne

Michelle Nicié disse...

Que noite estrelada! Belo texto!

beijos

Michelle

Silvia King Jeck disse...

Acabo de ler Marcas de Nascença (Nancy Huston)no qual os quatro narradores são crianças de seis anos que fazem profundas reflexões sobre suas vidas. Mais uma vez pões teu toque de Midas literário. Deverias publicar estas crônicas. E, a propósito, Vincent agadecerá pelo Starry Night.

Erica Vittorazzi disse...

Diga para a Lu, que sempre há estrelas para quem olha para o céu.


(Eu faço isto à três da manhã).



Lacan, lacan... o que não faria para entendê-lo completamente?

BEIJOS

Carlos Eduardo Leal disse...

Para entender Lacan? Faça como a Lud,olhe as estrelas, nelas estão todos os significantes, todos matemas...rs
bjs