domingo, 9 de maio de 2010

Era uma vez...

Christian Northeast

Era uma vez um menino que gostava muito de ler. Era uma vez uma criança fascinada por monstros, dragões, fadas e reinos encantados. Gostava de aventuras como todo menino. Gostava de magia e fantasias com bichos de outro mundo como só sua imaginação permitia.
Tudo isso ele ia descobrindo a cada livro que lia. Não aos poucos, porque lia muito. Sem parar. Lia tanto que já não sabia mais se era ainda uma criança ou havia se transformado num personagem de um dos seus livros. Ele tinha muitos, muitos livros. O que mais gostava era "As aventuras do pé do dragão" que contava a história de um dragão que tinha medo de cortar as unhas. Creio que como todo menino, e este da nossa história não era diferente, tinha medo de cortar as unhas.
Pois assim também era com o "pé do dragão". Pois ele sempre fugia quando sua mãe vinha com uns alicates enormes feitos por dentes de tubarão afiados no alto da rocha mais escarpada do mundo no topo da montanha vermelha que cospia fogo. O pobre dragão morria de medo daqueles alicates enormes e, amedrontado, perguntava-se da real necessidade de suas garras serem cortadas. Eram ineficazes todos seus histéricos borrões de fumaça ainda sem tanto fogo liberados de seu enorme nariz. Não surtia nenhum efeito diante de sua impassível mãe-alicate.
Sempre que Reinaldo, este era o nome do menino que tinha adoração por livros e dragões, se via sentado em cima do pé do dragão como que a protegê-lo dos "alicates cortantes" dizia uma palavra mágica que estava escrita na unha do próprio dragão para protegê-lo. Era sua senha para entrar e sair a salvo do livro. Sempre que lia esta história Reinaldo se transportava para dentro do livro como que a temer aquilo que o excitava tanto. Queria se proteger, por isso entrava dentro do livro. Queria proteger seu adorável dragão de estimação, por isso mergulhava por entre aquelas páginas encantadas.
Mas certo dia Reinaldo não voltou mais. Seus pais e irmãos procuraram por ele em toda parte, mas não encontraram nenhum sinal. Quer dizer, ao lado e dentro de seu livro preferido, encontraram apenas alguns pedaços de unha gigantescos, algumas letras e palavras sem nexo para o mundo adulto e uma mecha de cabelo chamuscado que parecia ser do Reinaldo. Será que ele andava brincando com fogo?
Seria então verdade que a leitura é um fogo insaciável? Dragões mastigam crianças e literaturas?
Ou pior. E se as unhas começassem a roer os meninos?

4 comentários:

ELA disse...

São uma delícia os textos que terminam com perguntas. É como se não terminassem nunca.

Sem dúvida, a leitura é um fogo! Insaciável, claro, claro... E mais felizes seriam as crianças roídas pelas unhas literárias e mastigadas por dragões ricamente fictícios, em vez de serem hipnotisadas pelos desenhos animados da caixinha mágica televisiva e vazia.

Um abraço,
Michelle

Marta disse...

gostei tantoooooooooooooooooooooooooooooo, CARLOS. OBRIGADA.

Carlos Eduardo Leal disse...

Eu é que agradeço a leitura atenta e de vcs aqui,
Com carinho
CEL

Edgar Semedo disse...

Texto muito divertido.

Tudo de bom,

E.