quarta-feira, 17 de março de 2010

Outono


Outono em Paris, Rosah Casanova

...então ela veio caindo sem peso aparente. Corri no afã de protegê-la da queda. Estava assustado, talvez mesmo perplexo porque jamais presenciara tal beleza. Meus pés estavam frios, quase inúteis e muito dormentes. Mas eu tentava me manter lúcido tanto quanto a ocasião me permitia. E minha lucidez era frágil, abafada pela excitação de um corpo que transbordava silêncios. Queria estar ali quando acontecesse. "Sempre acontece", me sussurraram. "Você é que nunca prestou atenção". Minha eterna distração com as coisas ao meu redor caracterizava minha pintura. Eu é que nunca a havia notado. "Você nunca nota nada", reafirmaram. Segui ao encalço da queda, mas os olhos agora embaçavam úmidos na emoção de olhar para o alto. Não muito, mas apenas suficiente para diferenciá-la das nuvens violáceas. Mal era um fim de tarde. Mal era um dia por inteiro. Não, não era a noite, mas eu temia que as horas não fossem suficientes.
Carreguei a palheta com muitas cores. Destaquei meus melhores pincéis. Desanuviei sobre a tela em branco e colori meu dia. Ela me trazia o amor-apaixonado há muito esquecido.
A luminosidade havia chegado em meus espaços, em meus intervalos irregulares. Intercalado, percorri meus humores e notei que ela estava ligeiramente diferente do que da última vez. Sim, sempre notei sua presença, mas cegava-me as possibilidades. Então, sofria feliz apenas por compartilhar suas quedas repentinas, transversais do tempo, antes do fim do dia.
Isto ela me ensinou: a morrer antes de morrer e a viver antes que seu nome fosse pintado em minhas telas. Desprender-se do céu, desprender-se de uma árvore, desarvorizar, como ela me dizia aos sussurros, era um ensinamento orgástico e diário que percorria minha espinha nas cores do outono que mais tarde tentaria reproduzir, como se isso fosse possível, em minhas telas.
Neste momento, por exemplo, já poderia morrer exultante antes do fim do dia: sua luz me engravidara sem metáforas.

8 comentários:

Anne M. Moor disse...

Será que um dia "aprendemos a morrer"? Morrer em nós, no outro que é nós também...

Adorei teu conto. É de um fluir tremendo, algo que gosto tanto nos teus escritos...

Beijos
Anne

Renata Vilanova disse...

...uma fruição, uma pequena morte, um nascer colorido. que lindo. você descreve as cores, como consegue? descrever sem fazer parecer palavra estratificada. é lírico demais!
beijos.
Renata

Silvia disse...

O que mais me encanta em teus textos é tua habilidade de jogar as palavras para lá e para cá, buscando os significados intrínsecos que cada uma delas tem, além do original de cada uma, que está no Aurélio. Teu pincel é o teclado e com ele dás colorido à página em branco.

contosnoturnos disse...

Professor, cada dia que passa sou mais fã seu, e de alguma forma me inspiraste a também escrever, sei que não tão bem, com muito erros ou acertos quem sabe, mas escrevo sobre o que estou a sentir. Se puder por favor, leia o meu inicio e comente sua verdade. Obrigado

http://contosnoturnos.wordpress.com/

Adriana Guedes disse...

Pois eu gostei foi dos "intervalos irregulares". Cara, de onde vc tirou isso?
Adorei pela inquietação que provoca. Intervalo pressupoe repetição, mas os teus devem se dar de forma diferente?!!!!
Bj

Rachelzinha disse...

Carlos Eduardo, não me canso de ler seus escritos. Eles me tocam de uma maneira muito especial. Muitos beijos Rachel Dias

Custódio disse...

Querido Professor, realmente muito bom seu blog, não preciso nem dizer que é escrito com muito capricho e com isso se torna uma leitura muito boa e relaxante. Quanto ao tema sugiro algo sobre o amor, pois estou às voltas com esse assunto querendo me casar ano que vem!
Beijoss Alessandra Oliveira.
Obs: Postei com a conta do meu noivo, pois não possuo nenhuma dessas! =(

Fernando Inazumi disse...

impressionante!!!
tao impressionante, que é dificil dizer se vc e escritor ou pintor =)parabens!!