domingo, 8 de novembro de 2009

A palavra no silêncio


Estava rodeado de silêncios quando ela entrou em minha vida. Não é que estivesse só. Estava em silêncio. Talvez não soubesse muito bem a diferença entre silêncio e solidão. Só fui me dar conta quando ela surgiu em mim. Meus silêncios, se bem me lembro, sempre estiveram rodeados de palavras. Todas indizíveis naqueles momentos.
Desde cedo, aprendi com meu avô, que palavra guardada é água em nascente. Ainda não é rio, muito menos cachoeira, mas está rodeada de plantação que preserva o nascedouro de letras, estrofes, rimas ricas e ficções. Assim cresci, assim me senti até o momento em que não me sentia mais. Dava falta por mim. Foi por esta época que descobri a dimensão do silêncio. Não emudeci, muito pelo contrário. Nesta época falava mais. Dei para falar com nuvem cinza, vento no fim da tarde, galhos retorcidos, violoncelos, andorinhas em revoada, sapo martelo e grilos: estes eternos inimigos do silêncio. No silêncio estavam todas as palavras. Todas por dizer ou escrever. Era feliz em meus nascedouros. A palavra jorrava infâncias e eu era abduzido por letras extra-carloseduardianas. Ficava confortável naquela situação. Na infância da vida todas as palavras são bem vindas. O único problema é que ainda não sabemos disso. Então a gente sofre por acréscimo e os invernos tornam-se cada vez mais agudos e os outonos mais sinceros. Na lida diária, a tristeza toma um lugar muito especial quando aprendemos a dimensão da palavra amor. Quase sempre ela vem acompanhada de duas palavras: encontro e despedida. Parecem irmãs, mas só tomam a real dimensão de sua intensidade quando transversais ao amor. Na lida diária, a alegria toma um lugar muito especial quando aprendemos a dimensão da palavra amor. Quase sempre ela vem acompanhada de duas palavras: encontro e despedida. Parecem irmãs, mas só tomam a real dimensão de sua intensidade quando transversais ao amor.
Na infância era muito difícil saber quando uma frase encontrava seu crepúsculo e outra iniciava um opúsculo. Na infância tudo ainda está por nascer. Nem o silêncio é todo. Alguns ruídos extremados de ansiedade parecem querer nortear o coração, mas falseiam ainda na puberdade das palavras.
...estava rodeado de silêncios quando ela entrou em minha vida. Maduro, estava longe de antigas nascentes. Talvez nem lembrasse mais delas. Haviam ficado escorridas, cada uma com sua indizível dor pelo estuário da memória.
Habitar a palavra é habitar o seu indizível? É negociar com ela sua passagem mais delicada pelo tempo de sua morte? Tenho a suspeita de que deixar uma palavra morrer é escrevê-la. Porque viver é também morrer aos poucos já que a vida inaugura a morte. Viva, a palavra em mim habita. Morta, ela jaz no papel e já não me pertence.
Abandono palavras como um pássaro abandona seu ninho quando aprende a voar. Aprendi com meu avô a escrever palavras nos bancos das praças, nos olhos dos morcegos, no escuro da noite, antes de virar uma página, nas asas das corujas, enfim, em todos os lugares em que habitasse com meus silêncios. Só não lembrei de perguntá-lo como é que se evita a ilusão no amor. Se ele estivesse aqui eu novamente estufaria o peito, como fiz tantas vezes em criança, e perguntaria: vô, como é que se escreve uma palavra no meio do amor? Isso ele não me ensinou. Fico então achando que "nós dois somos um só". Mas o engano não cabe em meus silêncios. Então escrevo a procura da verdade. Não-toda, bem sei. O contrário seria beirar a loucura. Mas, quantas vezes na história da humanidade o amor não esteve íntimo da loucura? Escrevo. Escrevo loucamente e sorrio como os lagartos camaleônicos. Assim, as palavras me desabitam deixando-me esverdeado em meus silêncios e esperanças.

12 comentários:

Cris disse...

Carlos Eduardo,

quando você mata uma palavra ao escrevê-la, faz ela nascer em cada um de nós.

Obrigada.

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo
O movimento das palavras a irem e virem nos silêncios barulhentos da vida ajudam-nos a arrumá-las no papel/na tela e servirem de combustível para os pensares de tantos... inclusive nossos!

Beijos
Anne

Ana Paula Gomes disse...

Silêncio....ausência. E palavras, palavras, palavras.

bjos,

Ana Paula

Renata Vilanova disse...

Que palavra... que nos cala... que não dá conta de ser pintada, escrita, relida em sua totalidade... é tanta...! É preciso silenciar-se e se saber não-só. Obrigada Carlos Eduardo, por mais um texto tão precioso-preciso. Aproveito pra agradecer a interpretação de Anne.
bjs
Renata

Maria disse...

Carlos Eduardo

Como sei desses silêncios. Nele escuto a cantiga que embala a vida. Dele recolho as palavras não ditas, as visões plasmadas e o toque leve que arrepia.
Bjs
Maria

Paula Saraquine disse...

O Carlos Eduardo, há tempos que não coloco minhas palavras por aqui. Elas estavam silenciosas, né? Resolvi, hoje, "abandoná-las" para que outras viessem tomar seu lugar, ou para quem sabe, me desabitasse "deixando-me esverdeado em meus silêncios e esperanças".
Lindo seu texto!
Bjs

Anne M. Moor disse...

Renata, com a licença de Carlos Eduardo... :-)

Obrigada pelo carinho!

Beijos
Anne

Carlos Eduardo Leal disse...

Ah, imagine Anne,
Nem precisa pedir licença. É só ir entrando e tomando um cafezinho. A casa é tua...rs
...se trouxer um bolo de milho então é festa absoluta!

Maria Regina disse...

Que as palavras jorrem sempre, e com tanta frequência que alimente a terra onde pisamos e construímos nosso caminho.Uma honra tê-lo em meu blog. Fui sua aluna no Curso de Pós-graduação em Psicanálise no CES em Juiz de Fora. Suas aulas eram muito queridas por todos nós.
Um abraço

Sofia Fada disse...

Adorei isso: 'Meus silêncios, se bem me lembro, sempre estiveram rodeados de palavras. Todas indizíveis naqueles momentos.' Adorei o texto inteiro.
Está de parabéns!
depois volto também para ler mais...
bj

Adriana Guedes disse...

Eduardo,
"estava rodeada de silêncios" quando comecei a ler esta crônica tão linda. As palavras curam. Quem vive delas bem sabe que isso é verdade. Há um assombro na possibilidade de perdê-las.Ou de não tê-las na hora certa.
Um abraço silencioso,
Adriana.

Flor de Bela Alma disse...

Oi Carlos Eduardo, eu ouvia muito seu nome quando morava em Juiz de Fora. Sou analista lacaniana e minha formação começou, em alguma medida, no Ces mesmo. Lembro da primeira pessoa que me olhou com uma doçura infinitamente perspicaz e me disse aquelas coisas que eu buscava há tanto tempo por vias atravessadas. Enfim, encontrei as vias lacanianas e algo do meu desejo através da Zilene- uma professora muito querida. Isso já tem 12 anos, mas me lembro do seu nome por aquelas bandas e hoje arrumando uns papéis achei vc, e por curiosidade digitei no google para ver se encontrava outros textos seus e achei seu blog. Menino, que coisa mais linda do mundo esse texto e esse contexto todo. Eu estou absolutamente perplexa com tudo, especialmente com isso. Te enviei um e-mail e como achei seu msn te adicionei. Não sei se deu certo, mas vai o meu aí:
biandias@hotmail.com
Vou ler você todo no final de semana. Adorei tudo aqui. Vamos pensar em trabalhar alguma temática da literatura? Podemos montar um cartel até. Vamos nos falando. Eu tenho um blog - aqui ó:
www.flordebelalma.blogspot.com