segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A palavra emprestada

Estava só e tomei uma palavra por empréstimo para me fazer companhia. Não lembro bem qual era. Já tinha bebido muito, mas posso garantir que não foi qualquer uma. Queria uma que fosse única, especial para me fazer companhia. Meti-a com cuidado no bolso do casaco e saí do bar em frente ao circo mambembe que horas antes eu me deliciara assistindo, e segui em direção ao hotel em que estava hospedado. Os clowns sempre me impressionaram pela sua alegria-triste: um sorriso vermelho, artificial que quase termina nas orelhas e os olhos amordaçados de tristeza. Enquanto caminhava sozinho pelas ruas daquela pequenina cidade interiorana, lembrava da minha infância rural. Naquela época as palavras ainda me duvidavam e a solidão escoltava meu espanto feliz diante das coisas simples da roça: duas andorinhas implicando com um gavião (por que elas sempre fazem isso?), as gotas de orvalho que eram como pequeninas pérolas retidas nas folhas de taioba (eu brincava de fazerem-nas escorregarem e juntava uma na outra até caírem para fora da folha), a lagarta amassada na terra pela roda do carro de boi, as avencas úmidas entre as pedras, um pé cheinho de carambola, os rastros de bosta deixados pelas vacas em direção ao pasto, as borboletas azuis e as amarelas por ali fazendo seu ninhal e sua delicada revoada, a casa de marimbondo chapéu na folha do coqueiro e muitas outras lembranças para assar no forno de lenha da casa avoenga.
Caminhava distraído em minhas recordações evocadas pelo circo quando novamente meti a mão no bolso para brincar com a palavra que havia pegado emprestada. Lembro imediatamente de ter tocado numa alta e intrépida consoante, depois numa serpente menor e, logo a seguir numa vogal pela sua maciez. Não queria machucá-la ao trocar de lugar com outra vogal ou uma consoante. Vocês sabem como as palavras são extremamente sensíveis ao menor toque em suas letras. Se retiramos uma do lugar, as palavras imediatamente são capazes de tombar desacordadas e ficar ali por uma infinidade de tempo, totalmente imprestáveis, imóveis como uma coruja até que restituamos a letra surrupiada. No entanto, existem palavras que nem precisamos tocá-las para percebermos que são inertes em sua essência. A palavra pedra, por exemplo, é uma destas palavras condenadas à imobilidade. Por si só não é nada, mas basta um Mick Jagger para você ver até aonde esta pedra é capaz de ir. A palavra solidão também parece ser possuída por uma rica força interior que nada a move, exceto se uma outra palavra vem percorrer ao seu lado em sua história.
Ainda com a mão no bolso senti a agudeza de outra letra. Uma consoante desta vez. Ereta como um eucalípto.
Outra mexida e minhas mãos tocaram noutra vogal. Era magrinha com um chapéu. Poderia bem ser um 'i'. Deixei-a quieta. Letras frágeis assim não são boas de se brincar com elas. Costumam ser irritadiças como D. Quixote. Lançam-se impetuosas como se fossem a flecha de um arco ou a própria lança do cavaleiro andante.
Mais um pouco a direita e meu indicador encontrou a aspereza de um 'r'. Não tinha a menor dúvida de que letra se tratava. Em tempos remotos já havia me deparado com sua dura aspereza e não ia ficar ali esperando ser detonado por esta letra da raiva.
Mas, de repente, corri ligeiro c'os dedos e, absorto, descobri que a palavra havia sido quebrada. Não, não era um hífem que a separava de sua outra parte, muito menos era uma palavra composta ou sequer uma expressão do tipo 'valha-me Deus!'. Percorria com os dedos a sequência das letras e não achava uma razão de ser naquela descontinuidade. Sentei triste num banco da praça e, cuidadosamente, fui retirando as letras do meu bolso, uma por uma, ou melhor, o que ainda restava delas e colocando-as sobre uma pequena mesa de cimento ao lado de uma árvore (é importante que eu dê todos estes detalhes). Ao meu último ato olhei dentro do bolso para ver, até aonde a luz me permitia, se ainda havia alguma letra esquecida por entre a costura e o forro do bolso, pois como já disse, basta uma letra esquecida para a inutilidade da palavra.
Para meu grande espanto, quando voltei meus olhos para a mesa não encontrei uma só letra. Imediatamente olhei para o chão pensando numa lufada de vento que acabara de me roçar os cílios. O chão de cimento estava limpo. Apenas algumas folhas secas ciscavam insólitas na madrugada. Estava relembrando o que fizera desde a saída do bar quando ouvi um leve barulho num galho da árvore. Virei-me imediatamente e, surpreso vi, ou melhor, li, ainda não sei bem, uma palavra se mexendo por entre os galhos. De início li trapezista, depois contorcionista e, logo a seguir, mágico. E a palavra sumiu em mim. Por inúmeras vezes retornei àquele circo na esperança de reencontrá-la. Sempre em vão.
Por isso escrevo e, a cada palavra escrita, coloco-a dentro do meu bolso para que quem sabe ela me leve até aquela outra palavra tomada por empréstimo e, agora, para sempre perdida. E a cada ato de colocar uma palavra no meu bolso, constato sem querer acreditar, que não posso carregar a palavra que não me pertence.

15 comentários:

PandoraSempre disse...

Simplesmente lindo, e sinto a tua falta no meu espaço.
Beijo do outro lado do oceano.

cristinasiqueira disse...

Oi,

Que conto lindo.Manso,foi se escrevendo quase que sózinho na mágica surpresa de um bolso de menino.Delicado com a frágil existência da imagem que se compõe em sons que dizem,ou não.
Qualquer descuido ou gesto brusco lá se foi a palavra pelo abismo do sem volta.
Gostei de seu comentário lá na Querida Querubim e dai o que para mim era claro também ficou enigmático.Percebo a conexão que se situa no umbigo enlaçada na mãe e a preciosa liberdade...quase morte.
Aprecio seu jeito de dizer,escrever,comentar.

Com admiração.Obrigada,

Cris
dai talvez a quase morte,

Tatiana Telink disse...

Acho que essa palavra era uma palavra-passarinho! Mas acredite, todas as palavras escritas aqui me fizeram carinho na alma. É um conto sensual demais... dá para sentir o bolinar desses dedos em cada letra. Ma-ra-vi-lho-so! Beijos, Tati

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo
Teus contos fluem como um rio em direção ao mar... Este brinca com 'palavras', sentimentos, vidas...

Lindo!
Beijo
Anne

Kaligia Cristina disse...

Professor,
Lindo demais o seu conto... me remeteu as coisas mais simples e bonitas da vida.


bjs!!!

Maria disse...

Gosto muito de ler o que escreves. E quanto a esta palavra, esta que pareceu perdida, presta atenção, porque elas gostam de brincar de esconde-esconde.

Renato Hemesath disse...

Ao procurar blogs que abordavam assuntos pertinentes à Psicanálise, vim a conhecer o teu.
Parabéns pelos escritos.

um abraço.

Carlos Eduardo Leal disse...

Renato,
Pois não é que a psicanálise está rodeado das palavras, principalmente aquelas não-ditas ou mal-ditas? Obrigado pela visita, pela sua leitura atenta e volte sempre,
Grande abraço,
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Maria,
Brincar de esconde-esconde era uma das minhas brincadeiras favoritas quando criança. Toda bela palavra um dia ficou escondida até saber-se sábia ao ponto de nos encantar.
Abraços,
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

K. Cristina,
Em geral esquecemos do simples ao querermos simplificarmos demais a vida ao invés de apenas vivê-la em sua complexidade,
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Um rio também tem seus dias de enchente e transbordamentos, mas mesmo assim o mar o acolhe.
bjs e obrigado pelo carinho de sempre,

Carlos Eduardo Leal disse...

Tatiana,
Palavra-passarinho! Com certeza era ela sim, pois toda palavra possui suas asas. Nós é que de bobos, às vezes cortamos suas asas.
bjs e bons voos

Carlos Eduardo Leal disse...

Cristina,
Pois é, as palavras possuem suas fragilidades e quebraduras se não as cuidamos para deixá-las prontas para grandes aventuras na outra página ainda não escrita.
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Pandora,
Obrigado sempre pela sua visita além-mar. Que este atlântico de palavras navegue cada vez mais!
bjs,

Flor de Bela Alma disse...

Gente, são duas horas da manhã e suas palavras me penetram com uma celeridade absurda. Você é meio Mallarmé- e quando a gente lê você, a gente fica sem saber se é a pluma ou o abismo. Um abraço e vou seguindo nas suas teias poéticas. Beijo: Bia