terça-feira, 31 de maio de 2016

Reflexões para os tempos de Guerra e Morte


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"Reflexões para os tempos de Guerra e Morte" - Sigmund Freud
Segundo seus biógrafos, Freud escreveu este texto por volta de março e abril de 1915, cerca de seis meses após deflagrar a Primeira Guerra Mundial.

Este título ecoou em minha cabeça após acordar e me deparar com a estarrecedora notícia divulgada pela ONU de que 880 migrantes haviam morrido num naufrágio esta noite.
Quem eram? De onde fugiam? Qual guerra haviam deixado para trás? Que esperança carregavam estas pessoas? Quantas crianças haviam naquele bote? O que representava aquela nau constantemente à deriva já mesmo antes de sua partida? Quais eram os nomes de cada um dos náufragos? Por que os anônimos não são contabilizados?
Vivemos num mundo em guerra. Declaradamente não o é, mas basta um olhar mais atento para que se perceba o caos humano que nos tornamos: guerrilhas, narcotráficos, cercas, muros de contenção e/ou de proteção. Alarmes, furtos, roubos seguidos de morte (latrocínios), homens-bomba, (agora também utilizam forçosamente crianças e mulheres), células terroristas, países em constante desespero (Iraque, Kuwait, Afeganistão, Síria), outros em constante tensão Bósnia-Sérvia, Coréia do Note-Coréia do Sul, Talibãs, Al Qaeda, Estado Islâmico, Boko Haran, Sendero Luminoso ,Fatah, Hamas e tantos outros que fica difícil que a memória registre.
No plano político, há outras guerras como a crescente ascensão da extrema direita na Europa. Aqui no Brasil, golpes e mais golpes na esfarrapada democracia. Aliás, que democracia é esta na qual o controle efetivo das decisões em todos os níveis estão reclusos nas mãos de alguns em benefício próprio? Por acaso, não estamos diante de um tirania disfarçada? Que alianças são essas feitas pelo atual (des)governo que sujam o nosso nome com a clara intenção de continuar a sangria do povo para sustentar a casta elevada do poder? Que homens são esses que na calada da noite naufragam os barcos daqueles que tentavam fazer a travessia de suas vidas roubando-lhes a esperança de um novo emprego, de um hospital para acolher um doente ou uma creche para alfabetizar suas crianças? Criança-Esperança? Isto é um engodo neste país, pois sabemos que uma semi-final de um Big Brother fatura para a TV GLOBO mais do que um mês de arrecadação do Criança-Esperança.
Os níveis de poluição alarmantes ao desmatamento das florestas, das guerras bacteriológicas aos conservantes tóxicos nos alimentos.
A guerra continua: ontem fomos rebaixados para o 57o. lugar em competitividade internacional. O que isto significa? Menos investimento internacional e mais desempregos.
Neste mundo em guerra, o estrangeiro passou a ser o inimigo. "Poder-se-ia supor, porém, que as próprias grandes nações adquiriram tanta compreensão do que possuíam em comum, e tanta tolerância quanto a suas divergências, que 'estrangeiro' e 'inimigo' já não podiam fundir-se, tal como na Antiguidade clássica, num conceito único". Freud, ibid, pág. 313
O estranho, "das unheimlich", é o estranho não-familiar para o qual devo produzir tanto ódio para evitar que ele se aproxime demais e roube meu lugar, meu emprego, meus bens e minhas terras. Esta parece ser a tônica que vai se montando neste cenário bélico. Donald (Duck) Trump está aí mesmo para destilar seu ódio aos latinos, muçulmanos, ou seja, um ódio hitleriano ao diferente. E, pensem, ele não está onde está sozinho. Milhares o têm conduzido rumo à Casa Branca.
Para Freud, a guerra traz desilusão. Para ele a religião é produtora de ilusão. É o que temos presenciado em outra frente desta guerra: o fanatismo religioso das bancadas evangélicas (amigos me contam que a Universal em Portugal foi uma lástima, "uma verdadeira praga") e tantos fanatismos religiosos nos EUA ou daqueles que em nome de um 'Deus obscuro' (Lacan) matam, provocam guerras "santas", ou condenam escritores com uma 'fatwa' (édito religioso muçulmano que condenou Salman Rushdie a pena de morte).
"Na realidade,"escreve Freud, "não existe esta 'erradicação' do mal". Assim, entre a desilusão e a ilusão, precisamos reconstruir um caminho que seja ético. Uma das definições, das muitas que temos, sobre a ética é, simplesmente, "quando surge o outro".
Enfim, deixo-os com a reflexão freudiana neste mesmo texto: "Duas coisas nessa guarra despertaram nosso sentimento de desilusão: a baixa moralidade revelada externamente por Estados que, em suas relações internas, se intitulam guardiães dos padrões morais, e a brutalidade demonstrada por indivíduos que, enquanto participantes da mais alta civilização humana, não julgaríamos capazes de tal comportamento."
Hoje foram 880 náufragos. E, com eles, muito de mim também naufragou. Amanhã serão quantos? Que futuro queremos para a civilização? Será infinito o Mal-Estar?

Carlos Eduardo Leal

2 comentários:

Crica Viegas disse...

Reflexão atualíssima sobre esse texto de Freud. O ser humano contínua o mesmo, apesar de gritar por mudanças.

Crica Viegas disse...

Reflexão atualíssima sobre esse texto de Freud. O ser humano contínua o mesmo, apesar de gritar por mudanças.