terça-feira, 12 de maio de 2015

A Vertigem da Palavra

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A vertigem da palavra

Era uma vez uma palavra velha, amarrotada, gasta pelo mal uso em geral que faziam dela. Não era uma palavra mal-dita (disto ela até ficaria orgulhosa), mas antes, era uma palavra dita de qualquer maneira, sem ênfase, sem acentuação nenhuma, até sem afetação. Ela se via num estado quase-morto, quase-isto, pouco aquilo. Nas escolas não entrava mais. Nas conversas pela internet tinha sido reduzida, mutilada e só lhe restava uma espécie de interjeição gutural inexprimível.
Andava assim quase a ponto de osso, sem circunflexos, sinônimos ou mesmo uma metaforonímia que fosse. Nada aplacava sua dor de existir. Nada tirava de seu semblante uma nuvem carregada de ninguém. Havia nascido no lugar errado e na hora errada, pensava com suas letras esparsas e quase apagadas pelo tempo. Pensou que fosse uma palavra-esperanto e quis se jogar do ponto mais alto da estante. Pensou que fosse uma palavra-latim e franziu por pouco tempo as circunflexas sobrancelhas na esperança que algum filósofo ou douto empertigado quisesse fazer uso formal em algum empolado discurso.
Estava condenada à extinção, pensou mais uma vez sem pressa de concluir o que realmente era inconclusivo: uma palavra em abismo. Vertigo.
Estava lá na oitava prateleira dentro de um antigo livro que por falta de uso já não lembrava mais do título. Era o resto do resto. Lembrou que certa vez passeou durante dias na bolsa de uma mulher empertigada que parava nos cafés e fingia ler. Aquilo a aborrecia demais. Era só uma leitora fake. Tudo menos isso. Tudo menos fingir-se de letra morta. Tudo menos ser aparência de aparência. Queria a essência do texto. Queria estar numa plateia, envaidecida por circular pelos ouvidos atentos daqueles estudantes sempre ávidos de saber. Sim, tinha lá em seus recônditos suas antigas convicções narcísicas. Ainda lhe restava alguma auto-estima. Já não lembrava mais onde, mas mesmo assim o pouco que tinha permitia o não amarelar por completo de suas páginas. Mas já era um fiapo de vida. Já era um sopro rudimentar de um velho bêbado numa noite escura e fria de inverno. Já via se cobrindo com o manto negro e sufocante do corvo de Poe ou na ponta da lança ensandecida de Quixote a lhe varar as vogais sempre tão mais aveludadas que as consoantes.
Lembrou de Racine, Sófocles, Eurípedes e sua desconsolada Medeia. Nem tinha filhos para matá-los. Muito menos havia marido para feri-lo segundo a desconcertante tragédia. Sua vida havia sido um drama medíocre sem tragédias. E isto era bem pior, pensou. Não haveria ninguém para recontá-la como se faz ad nauseum com as tragédias que não cansam de renascer nos arautos dos mais jovens. A tragédia não esquece por si mesma. Ela lembra de rememorar. Como uma compulsão ela não cessa de não se inscrever.
Quis pedir ajuda a um vetusto livro bem ao lado, mas não teve mais forças. Olhou para baixo e sentiu asco de sua própria vertigem. Estava na Roda da Fortuna e a sorte escorria-lhe entre uma sílaba e outra. Não tinha pena de si mesma, mas o sentimento de desamparo era fatal.
Estava nesta vertigem de si mesma, pronta para o ato final quando um curioso e sedento menino, vindo não se sabe de onde, empurrou a enorme porta da sala e avançou feroz e sorridente em sua direção como quem acha um grande tesouro há muito procurado...

Carlos Eduardo Leal

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