quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

EXODUS Novo romance (re-escrevendo)


(...)
Mas meu pai não era apenas um restaurador. Era também um arqueólogo aventureiro capaz de percorrer os quatro cantos do Brasil ou do mundo para encontrar uma única peça do quebra-cabeças perdido.  Tinha a certeza de que, com isso, conseguia legitimamente dar vida nova à imagem destroçada.
Ao refazer imagens, dizia que não estava só restaurando uma parte perdida da história da humanidade, mas religando-a aos céus. Ele mesmo dizia que restaurar era proporcionar a justa harmonia que havia sido perdida quando o homem e sua mulher deixaram o Paraíso.
Para mim era um Leonardo da Vinci, obcecado pela perfeição. Mas, se restaurar era como achar  restos humanos que haviam sido deixados para trás quando o homem e a mulher saíram do paraíso como se, assim (re)fazendo, ele fosse ainda capaz de impedir a queda do primeiro homem, então ele queria ser Deus? Ilusão? Fantasia religiosa ou crença nas potestades divinas e na sua severa missão aqui na terra?
Enfim, restaurar era contar a mesma história através de outras vozes, outros cânones ou reencontrar o Jardim das Delícias: delírio que contaminava a todos naquela casa.
Pegadas, rastros, pequenos sinais de uma antiga existência. Arqueologia das formas e das sensações perdidas. Escavações e atavismos numa colônia de puzzles históricos. Traços humanos, registros de uma época onde a delicadeza das formas inaugurava as vias sacras ou os promontórios da fé. Restaurar era ressuscitar o artista através da sua obra. Recriar o Criador no exato instante de seu Fiat lux. Restaurar era resgatar a luz, fazê-la jorrar na escuridão do despedaçamento.
Quantas e tantas vezes nos sentimos assim. Despedaçados, jogados no buraco negro da nossa memória perdida, à espera de uma bóia que nos salve do afogamento sem guelras. Ar, ar, ar. Tudo que sempre buscamos foi um pouco de ar que fizesse re-ligar nossos pedaços desaparecidos nas frestas da nossa rarefeita história.
Mas minha família sofria do pior mal que uma gentalha poderia sofrer. E naufragávamos num dilúvio imoral sem arca para nos salvar.
E, por acaso, muitas vezes não temos a transtornada sensação de que nossa família é feita por milhões de braços e abraços despedaçados que precisam ser restaurados? São milhares de ex-votos, pedaços de corpos onde os pedidos estão perdidos entre letrinhas miúdas, papéis amarelados, amargurados pelo esquecimento de quem espera pelo reconhecimento. Re-conhecer é também outra maneira de restaurar. O problema é que nossa família precisava de constantes restaurações, mas ninguém enxergava isso. Ou todos eram míopes ou se faziam de cegos para não perceberem o mal que lhes rondava.     (...)

4 comentários:

Telma Cutnei disse...

Perfeito.

Andrea Almeida Campos disse...

Feliz por você estar escrevendo um novo livro. Arqueologia da família. Boa Viagem!

Gunga Guerra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gunga Guerra disse...

Ex-Cel-ente!