domingo, 13 de novembro de 2011

Palavras enxertadas

  Graham Roumieu
Justine Beckett

Quando era menino, gostava de inventar palavras. Com cuidado, porque ainda não sabia muito bem como fazê-lo. Seguia os passos do meu avô que inventava enxertos para as plantas. Dálias com dracenas. Tangerinas com laranjas. Manjericão com alecrim. Orégano com lascas de macarrão (os temperos já saíam com a dose certa). Ciprestes, ele enxertava com enfeites de Natal. Ele era um inventor de impossibilidades. Em sua magia, todas davam certo. Madeiras-de-lei com árvores transgressoras. Ele mesmo ria de suas invencionices. Eu achava graça, mas curioso, prestava muita atenção com a seriedade possível para um neto que via em seu avô a saída para a monotonia do mundo. Com afinco, portanto, seguia inventando novas palavras nascidas do enxerto de duas anteriores. Porém, certo dia, talvez por descuido infantil, desinventei uma palavra. Fiquei triste como se o mundo dependesse daquela palavra para existir. Era meu mundo que rondava perigo. Mas, para minha surpresa, meu avô não brigou pela minha desinveção. Ao contrário. Achou bonita aquela palavra inexistente. Ô meu neto, ele disse, como você fez para criar uma não palavra? Na verdade era uma palavra feita no amanhã. Ainda não existia, portanto. Ela possuía uma cor nunca vista, exuberante, que descortinavam meus olhos para as estrelas. Um aroma das manhãs orvalhadas dos campos virgens e uma textura que não cabia em nenhuma gramatura de papel.  Assim, foi tanta emoção, que acabei por abrir as duas mãos (pois ainda a guardava inseguro como quem pega no escuro um vaga-lume) e feliz, com lágrimas autênticas nos olhos, consegui senti-la a acariciar-me a pele. Pude vê-la voar suave num movimento espiralado em direção aos céus. Ainda hoje a reencontro sempre que sonho e olho apaixonado no brilho dos teus olhos.

6 comentários:

Anne M. Moor disse...

Que coisa bem linda! Que palavra cheia de sentimento... Ainda bem que a linguagem nos permite inventar e desinventar palavras que expressam melhor ou pior o que sentimos.

Adorei!

beijos
Anne

Anônimo disse...

Palavra é mesmo assim, como bicho, como planta,como gente. Você gosta dela ou não sem ter como explicar. Principalmente ao escrever...Há algumas que nunca se usa; e há momentos que nenhuma existe para contar o que se quer, nem verbo que aja como se deseja. Então uma surge novinha, moleca na sua cabeça,brincando com a Língua. Questões de amor. Mas em desinventá-las nunca pensei, embora haja muitas que gostaria.

Teresinha Oliveira disse...

O Anônimo sou eu :)

Carlos Eduardo Leal disse...

Obrigado pelo carinho da sua leitura, Anne.
Bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Ah, Teresinha, que bom q vc se identificou, pois já estava pensando numa palavra (um nome) para uma pessoa anônima...hehe
abraços

Celina Beatriz Villanova disse...

São ótimas suas histórias com seu avô, quantas imagens, quantas variações sobre os tons da vida! Muito bom, como sempre são os seus textos...