sexta-feira, 17 de junho de 2011

O titereiro apaixonado

 
Durval Dias, ou simplesmente DD, como gostava de se apresentar, era um titereiro. De origem humilde, DD tinha herdado dos pais uma meia vocação, quer dizer, seus pais eram circenses e, com o incêndio do circo em 17 de dezembro de 1961 em Niterói, tudo o que lhe restou foi um pequeno palco e duas pequenas marionetes. Meia vocação era o que ele mesmo dizia sobre sua sorte. Órfão de dois trapezistas carbonizados pela lona inflamável, restou-lhe o malabarismo de tentar sobreviver levando sua arte de cidade em cidade pelo Brasil afora. Não enlouqueceu como o Profeta Gentileza. Não ganhou filmes e livros e teses de mestrado sobre sua vida.
Não. DD não era famoso, porém era extremamente hábil no que fazia. Dedos ligeiros como um exímio guitarrista em seus voos solos faziam com que seus bonecos tivessem vida como Copélia, o autômato de Hoffman. Quando a história de amor entre Deco e Dalva se iniciava, sua plateia nem piscava um pensamento. Não havia quem não se maravilhasse com o amor e o des-encontro tão verdadeiro entre os dois bonecos. A cada final do espetáculo, quando as pequenas e sujas cortinas floridas cerravam a história, os olhos dos assistentes estavam brilhando como se tivessem luz própria. Alguns choravam de tanta emoção. Aquilo parecia tão verdadeiro, tão real que até se esqueciam de ir ali atrás do pequeno palco cumprimentar DD pela atuação. 
Assim, a vida caminhava sem muito rumo: deambulante. Após cada apresentação, DD arrumava sua maleta de couro surrada, entrava em sua pequena caminhonete, consultava seu mapa amarelado e rumava para outra cidade. Mas "a vida é real e de viés. E vê só que cilada o amor me armou". Eis que ao aportar na praça de uma cidadezinha de não-sei-qual-o-nome, havia um pequeno palco armado igual ao seu. Viu de longe e reconheceu. Era outro titereiro. Se para um mal havia plateia, para dois seriam centavos a arrecadação. Titubeou tal qual Dalva pelo amor de Deco, mas acabou por abrir o palco lado a lado. João Justino, o JJ, era o outro titereiro. Não se opôs. Achou até engraçado. Seria a primeira vez que teriam a companhia de outro colega de profissão. E, engraçado, ambos tinham duas letras repetidas no nome. Estava feito, Naquela noite, seria DD e JJ. 
Pela primeira vez DD ia ver uma apresentação. Ele nunca havia assistido. Sempre ficara ali em cima, escondido por detrás de um pano preto, encapuzado como se fosse um criminoso que não pode aparecer. 
Foi então que o mais inusitado se deu. Quando JJ começou sua história, DD viu que eram dois bonecos que também se chamavam Deco e Dalva. Seu coração estremeceu. E arrepiou-se ainda mais quando ao escutar a história foi percebendo, sem querer acreditar, que era a mesma história, sem acrescentar ou tirar um única vírgula, que JJ contava. Ao terminar todos estavam aos prantos. DD já não tinha mais forças para chorar. Então todos pediram que DD contasse a sua história. JJ também nunca tinha assistido a outro titereiro. E a emoção foi a mesma assim como o espanto de todos de algo nunca visto. Eles haviam combinado? alguns perguntavam. Era uma armação? indagavam outros. 
Mas ante a perplexidade de todos, quando DD olhou cara a cara nos olhos de JJ, não teve mais dúvidas.  Aliás, os dois agora possuíam a mesma certeza. E, no meio da praça lotada deram o maior abraço que cada um já havia dado. E choraram o reencontro. Eram os irmãos que haviam se separado após o incêndio do circo. E a história de amor encenada pelos irmãos era a única lembrança de Raquel, a mãe amada que lhes contava sempre antes deles dormirem na rede de proteção do trapézio de sua vida.  

9 comentários:

Prosas e Versos - AndreaCristina Lopes disse...

Lindo teu Bogue! Adorei passar por aqui!

http://andreacristinaescritos.blogspot.com/

Beijão e ótima noite!

Anne disse...

Carlos Eduardo

E como coincidência não existem, o dedo do destino/vida/ sei lá estava ativo nesse reencontro. Que delícia de conto/história de duas vidas...

beijos
Anne

Lara Amaral disse...

Nossa, lindo conto!

Beijo!

Teresinha Oliveira disse...

Gostei muito, até porque sou testemunha ocular desse incêndio. Morava em Icaraí, nove anos, e só escapei do fogo porque meu irmão caçula,graças à benção divina, ou numa dessas coincidências que determinam o destino de cada um de nós, acordou com febre.
Teu conto, para mim pelo menos, revela-se realista e possível, além obviamente, de uma sensibilidade que comove.

Carlos Eduardo Leal disse...

Teresinha,
Estávamos no sítio de meu avô e alguém se atrasou então perdemos a hora e íamos na segunda sessão quando soubemos pelo rádio do incêndio.
Obrigado pela tua leitura sensível.

Anônimo disse...

LINDO ESSES SEU CONTO COMO TANTOS OUTROS, CHEGUEI ÁS LÁGRIMAS!
PARABÉNS CARLOS EDUARDO,POR ME FAZER EMOCIONAR!
NINA SCHERMANN

Ana Beatriz Manier disse...

Carlos, que bonita a tua forma (deslizante) de narrar e que bonita história. Encontros assim são sempre belos.
Ana

sindrominha disse...

Oi Adorei o seu blog, gostaria de convidar você ao meu blog de textos existenciais, obrigado!

Silvia Varela disse...

Que linda história!!!! Que lindo reencontro... Que lindas lembranças... Obrigada por escrever e nos fazer conhecer algo tão belo.