segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A cor do desamparo




A solidariedade pode ser mais um dos muitos nomes que podemos utilizar para a ação voluntária. Mas creio que diante de tanta tragédia, qualquer nome torna-se precário, pois é impossível medir e quantificar a dor. Esta, nestes momentos, torna-se inominável. Tenho uma casa em Teresópolis e, como muitos, no último fim de semana fui levar donativos para as vítimas. Mas, eis que chegando lá, tornou-se impossível ficar indiferente e, ato contínuo, alistei-me na Cruz Vermelha. Como psicanalista, fui designado para a delegacia/IML/acolhimento das pessoas em busca de parentes mortos e/ou desaparecidos. Em minutos tive que esquecer tudo que sabia em anos de prática clínica e reaprender a cada novo caso. Reaprender a dimensão da vida e, principalmente, da morte. Ali, naquela dimensão desumana, muito além de tudo que até então ao longo dos meus quase trinta anos de consultório havia vivido, tive que improvisar algumas coisas: um abraço que confortasse, acolher um choro, pensar rápido sobre o flagelo de uma família e sua semidesaparição, acolher um corpo literalmente despedaçado e, talvez, o mais difícil, encaminhar o olhar das pessoas ao encontro de inúmeras fotos de corpos, rostos desfigurados, inchados pela terra e pela água, roxos, disformes. Tentativa de reconhecimento de alguém que um dia foi tão próximo na felicidade e no compartilhamento da vida. Tentativa de reconhecimento de alguém que se sabia de cor o tom dos cabelos, a espessura das sobrancelhas, o corte das unhas. Pequenos detalhes que se desfiguram diante da enchente real de terra, paus, pedras, lama e, da enchente afetiva de emoções que transbordam para outras margens do sem fim. Margens destroçadas, sem bordas definidas. Rios de lágrimas que nunca presenciei. O que dizer de uma mãe que procura pelo seu menino de dois anos e fica a olhar fotos de crianças mortas, deformadas pela cor, a terra selvagelmente nas bocas, nos olhos, narizes. Se é dura esta descrição? Pois então escutem com seus corações o que estariam pensando aquelas mães ao não conseguirem reconhecer um pequeno traço de seus filhos. Pensem que elas poderiam estar pensando também nas outras mães que nunca mais irão encontrar vestígios ou aquele cheiro particular de suas crianças. O pior desta tragédia é que com o passar do tempo, todas estes sobreviventes se tornarão invisíveis. Pessoas comuns, numa miséria incomum, mas desasistidas pelo poder público. Vimos e temos visto o mesmo filme ao longo dos anos. Hoje elas ainda frequentam os jornais. Amanhã, quando outra desgraça sobrevier, eles serão apenas um número numa estatística cruel e perversa. Por isso é preciso uma assistência continuada. A educação, a saúde e a prevenção de riscos não é um evento, mas uma ação permanente. O evento, a catástrofe, é pontual, mas o movimento para se reduzir a dor, a perda e as mortes, deve ser um projeto de toda uma vida.
Ainda não há uma tinta para colorir a tragédia deste desamparo. Ainda não há uma cor definida para amenizar o cinzento desta tristeza. Porém, a solidariedade talvez possa ser o nome para se começar a pensar na cor da esperança.

40 comentários:

Vanessa Souza Moraes disse...

Fiquei cá a pensar de que cor é a esperança...

http://vemcaluisa.blogspot.com/

Lívia Azzi disse...

"Hoje elas ainda frequentam os jornais. Amanhã, quando outra desgraça sobrevier, eles serão apenas um número numa estatística cruel e perversa".

Profundo e comovente relato de uma perspectiva que a grande mídia não mostra e nem sensibiliza, apenas choca. Esses fatos muito tristes ficaram engasgados em meus pensamentos, não consegui nem escrever nada, falar o que em meio a tantas demandas e questões? Só “chovi”...

Carlos Eduardo Leal disse...

Vanessa,
A cor da esperança é a primeira que sensibilizar teu coração em relação ao outro...
abçs

Carlos Eduardo Leal disse...

Lívia,
É impossível nós não transbordarmos em nossas chuvas interiores. Obrigado pela tua leitura sensível.
abçs

Ana Valeska Maia disse...

Carlos,

Teu texto me tocou profundamente. Trouxe a perspectiva de por um instante imaginar realmente como é estar no lugar do outro.
Acompanho desde o começo a tragédia na região serrana pela TV. De onde estou (bem longe de lá) faço o que posso no momento. Mas, depois de ler o que tu escreveste, ficou um engasgo, um coração apertado, porque nós sabemos que sempre pode ser feito mais.
No momento não sei mais o que dizer. Vou pensar sobre o que fazer diante de tantas situações difíceis. Grata por compartilhar.
Bj grande.

Maria Alice Paes Barretto disse...

Nessas horas, todos nós - profissionais da saúde ou não - devíamos ter um olhar como o seu: capaz de ver além do que nossos olhos enxergam.

Carlos Eduardo Leal disse...

Ana Valeska,
"Acompanho desde o começo a tragédia", acompanhar, mesmo que de longe é uma bela maneira de não deixar que caia no esquecimento.
Obrigado pela sua leitura,
Bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Maria Alice,
Olhar com os olhos na alma é poder com-partilhar com o outro estes descaminhos que nos assolam.
Bjs

Celina Beatriz Villanova disse...

Verdadeiramente triste, pesado e doloroso... Não adianta, não há adjetivos que se aproximem ou qualifiquem a dor de uma tragédia deste porte. Que você, meu amigo, e todos os outros voluntários sejam inspirados em suas palavras e gestos como convém àqueles que nasceram para iluminar o lado escuro do sol...

Anne M. Moor disse...

Aiiii Carlos Eduardo

Estou sentada aqui a chorar após a leitura do teu texto. É um momento terrível para tanta gente. Não consigo nem imaginar a dor sentida por tantos!!!

Tenho uma imensa admiração por ti e por todos aqueles que estão lá ajudando como podem. Obrigada por isso.

bjos
Anne

Silvia King Jeck disse...

Carlos Eduardo
Teu texto desvenda o que a mídia não tem como desvendar: o sofrimento profundo e inexplicável de muito mais gente do que nós, daqui, podemos imaginar. Parabéns pela tua generosidade e pelo teu olhar atento para com todas essas pessoas que chegam a ti.
Bjos, Silvia

Carlos Eduardo Leal disse...

Beatriz, amiga de longa data,
É muito bom me reencontrar em tuas palavras. Alivia e aquece a alma
Grande abraço e meu carinho solidário

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Eu é que te agradeço a solidariedade de sempre através de tuas palavras,
Minha admiração

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Obrigado pelo companheirismo solidário. Nestas horas é fundamental.
Bj

Lívia Azzi disse...

[Autoriza que eu cite um fragmento de seu texto (com referencia é claro) no meu próximo post?]

Carlos Eduardo Leal disse...

Claro, Lívia.
Será um prazer. Me avisa quando o fizer?
Pode ser aqui ou pelo e-mail: celeal01@gmail.com
Desde já, obrigado
abçs

Viviane disse...

Carlos Eduardo,
Como os outros que leram teu relato, também me comovi. A emoção vem da visão do sofrimento profundo de outro ser humano e da perplexidade diante do quão pouco sabemos sobre quase tudo...
Estudo gestão pública e não consigo parar de pensar em possíveis soluções para que esta dor não se repita. Também vou ter que reaprender muita coisa depois de ler o que você escreveu.
E que todos nós, cada um com o pouco que sabe, possamos contribuir para pensar sobre um futuro mais colorido para todos.
Viviane

Denise disse...

Comovida,emocionada, além de grata pela oportunidade de conhecer você e de sua ação tão sensivel e presente.
(tive que improvisar algumas coisas: um abraço que confortasse, acolher um choro, pensar rápido sobre o flagelo de uma família e sua semidesaparição)

Que este abraço aprendido na dor,possa florescer esperança nesses braços que tu acolheu e na dor que com certeza minimizou.
carinho grande
Denise

Carlos Eduardo Leal disse...

Viviane,
Compartilho do teu sentimento em querer encontrar soluções. Como psicanalista fico atento à dor dos outros, principalmente quando tudo parece ser tão desumano. Estamos sempre por reaprender e nos reinventar.
Abraços solidários

Carlos Eduardo Leal disse...

Denise,
Obrigado pelo carinho das suas palavras. São estímulo para continuar.
Abraços e meu carinho também

sonia disse...

Carlos Eduardo,
fiquei emocionada com seu depoimento! Só posso desejar-lhe forças e proteção para cada vez mais levar uma réstia de luz a todas essas pessoas que terão que atravessar a dor sozinhas. A vida não tem atalhos!
Um abraço fraterno.

Alessandra disse...

Muito bonito o seu texto... Moro em Petrópolis e sei muito bem o quanto está sendo duro para as famílias que eu conheço e perderam tudo... Sem palavras para descrever o seu texto... Parabéns pelo belo trabalho!

PATRICIA BERTOLOTI disse...

...Em minutos tive que esquecer tudo que sabia em anos de prática clínica e reaprender a cada novo caso. Reaprender a dimensão da vida e, principalmente, da morte. Ali, naquela dimensão desumana, muito além de tudo que até então ao longo dos meus quase trinta anos de consultório havia vivido, tive que improvisar algumas coisas: um abraço que confortasse, acolher um choro, pensar rápido sobre o flagelo de uma família e sua semidesaparição, acolher um corpo literalmente despedaçado e, talvez, o mais difícil, encaminhar o olhar das pessoas ao encontro de inúmeras fotos de corpos, rostos desfigurados, inchados pela terra e pela água, roxos, disformes....

Olá Carlos Eduardo,
Neste momento o que mais aprendemos e que somos exatamente iguais...e o mais importante é que você percebeu isso, enquanto muitos não saem de trás da mesa ou de dentro dos seu jalecos...
Que jesus ilumine sua cminhada...
Um grande abraço fraterno.

Carlos Eduardo Leal disse...

Sonia,
Realmente a vida não tem atalhos, porém, vez por outra somos confrontados a inventá-los como se já o soubéssemos a tempos.
Abçs e obrigado

Carlos Eduardo Leal disse...

Alessandra, as serras se irmanam na tragédia.
abraços do lado de cá...

Carlos Eduardo Leal disse...

Patricia,
Somos iguais em nossas diferenças. E isto é que é difícil, respeitar as diferenças tornando-nos iguais.
Obrigado pelo carinho de suas palavras.
Abraços solidários...

Livia Maria disse...

Que bom que existe gente como voce que "põe a mão na massa" e olha com os olhos do coração.
Muita luz,
Livia Gonçalves

Carlos Eduardo Leal disse...

Obrigado por suas palavras, Livia.
Abraços

Keila Costa disse...

É Carlos...aterrador esse sentimento que somente essas pessoas podem sentir de fato...que bom que pôde participar, humanizar um pouco esse momento muito além de qualquer momento...
Abraços, Keila

Mabel disse...

CEL,
Me toca a sua experiência, que me passa ser visceral pelo seu relato.
Faço votos que a sua motivação e compaixão (ver o outro com os olhos do outro e ecoar em si a condição do outro) faça a diferença e o efeito pelo tempo que couber e que for possível para você.
Tenho pouca crença nas coisas de manada, mas eterna crença nos homens de boa vontade, aqueles que são movidos por motivação verdadeira.
Agarre o quanto puder essa atitude de cooperação, que quando é verdadeira produz frutos além das ações e planta sementes importantes nas pessoas.
Beijo,
Mabel.

Carlos Eduardo Leal disse...

Keila,
É muito difícil humanizar o que nos aterroriza, mas a solidariedade nos alerta que é preciso não nos deixarmos sucumbir.
Abraços

Carlos Eduardo Leal disse...

Mabel,
Os frutos só são realmente produtivos se outros puderem desfrutar dele e replantá-los. Não deixar morrer a ideia e transformá-la em outras ações.
bjs

Ana Cecília disse...

Face à dor, resta-nos apenas a resignação. Um exemplo de humildade e honestidade a sua postura diante da tragédia. Certamente ajudou a imprimir um pouco de cor à esperança dessas vítimas.

Carlos Eduardo Leal disse...

Obrigado pelo carinho e sensibilidade de suas palavras, Ana Cecília.
abraços

Karina Alecrim Bessa disse...

Olá Carlos,

Seu relato é comovente.

Infelizmente, somos testemunhas de que tragédias como essa tem se repetido por falta de ações preventivas duradouras. Tenhamos fé que um dia o cenário será outro. Enquanto isso, resta-nos vestir a camisa da solidariedade, colorida de imensa esperança.

Abçs,

Karina.

Carlos Eduardo Leal disse...

Olá Karina,
Aqui em Teresópolis, como nas demais regiões serranas constato, como era fácil adivinhar, uma diminuição do voluntariado e os desabrigados à sorte de alguns poucos. Obrigado pelas suas palavras pois elas também são revestidas de esperança.
Abraços solidários,
CEL

Mari Klatter Braga disse...

Você é do tipo que toca com palavras e atos, faz repensar a vida, nossa conduta... Enfim, parabéns. Gostaria muito de ler um romance seu, add você facebook. Parabéns.

Carlos Eduardo Leal disse...

Olá Mari,
Os dois romances que escrevi são "O nó górdio"(Cia de Freud) que trata da difícil relação ente uma filha e sua mãe(um nó górdio...indissolúvel?) e "A última palavra"(que é a separação de um casal de escritores)(Rocco). As capas estão no alto desta página. Obrigado pela sua atenta leitura.
Abraços,
CEL

Vivian C Vitorino disse...

Olá, Carlos. Fiquei sabendo da palestra sobre o tema, que o Sr proferiu na FAMATh. Sou ex-aluna e gostaria muito de ter ido, porém não estava na cidade ná época. Gostaria de saber se não poderia postar alguma parte dela aqui. Realmente não me conformo em tê-la perdido.

Carlos Eduardo Leal disse...

Infelizmente, Vivan, foi de improviso e no calor da emoção ao relatar os fatos.
abçs