sábado, 5 de junho de 2010

2012: o fim



Prazeres já estava com 92 anos. Próximo, portanto, de seu fim. Mas, extremamente lúcido e sempre vivaz e independente, sentou-se à escrivaninha, pegou papel e caneta e começou escrever uma carta para Clarice, sua bisneta. Mesmo com as mãos trêmulas, ainda mantinha a caligrafia esmerada dos antigos cadernos pautados.
E resolveu contar apenas as partes mais pitorescas de sua vida. Queria fazer circular entre as pessoas apenas seu lirismo e seu fino humor, resultantes tanto da sua vesguice crônica, quanto do seu andar torto, por haver quebrado o fêmur quando foi atropelado por uma charrete aos doze anos. Além de sua miopia galopante. Prazeres sempre foi contra a cirurgia para correção tanto da vesguice, quanto da miopia. "Quem tem a seu favor a possibilidade de não olhar de frente a vida e, ao mesmo tempo, de olhá-la bem de pertinho enxergando tudo?", dizia rindo. Sua memória, ainda de todo não corroída, seria sua herança, seu legado às futuras gerações. Por sua bisneta estar fazendo faculdade de letras pensou que ela seria a melhor destinatária.
Escreveu sobre o primeiro tombo de cavalo quando resolveu subir as escadarias da igreja da cidadezinha do interior onde morava. Escreveu a tragicomédia da carroça o atropelando. Escreveu sobre ter colocado outras crianças em cima de um formigueiro. Escreveu sobre o dia em que aprendeu a correr nas valas apoiando o pé manco no degrau mais alto e o outro dentro da vala. Mecanismo que o fazia equilibrar e correr como todos os outros garotos. Às vezes até mais, se corria de casa de marimbondo jogada no chão. Escreveu sobre como conheceu sua falecida esposa na quermesse da paróquia local. Foi uma paixão arrebatadora: após dois meses deram-se as mãos e o primeiro beijo veio quatro meses e meio depois. Tudo isso ele escrevia com graça e acrescentando aqui e ali um pouco de verdade ficcional. E ainda escreveu muitas outras histórias de caça de bichos ferozes no meio do mato e de pescador. Era tudo verdade, ou quase. Mas era a sua história.
Quando terminou a carta foi olhar no calendário a data que havia esquecido de escrever. Era dia 13 de agosto de 2012, que segundo o calendário Maia e o velho Nostradamus, seria o fim do mundo. Deu de ombro às previsões, pois pensou: "arre, já vivi até agora, talvez meu último ato seja postar esta carta nos correios."
Prazeres já não saía de casa há muito tempo sozinho. Vestiu seu terno de linho branco e foi até a agência dos correios que ficava duas quadras de distância. No lugar da agência encontrou um prédio alto de mármore e vidro. Olhou ao redor e não reconheceu mais nada. Andou por mais de duas horas perguntando e ninguém parava para falar com ele ou simplesmente diziam que não conheciam nenhuma agência daquelas. Por mais de uma vez indicaram uma agência bancária. Prazeres estava desolado. Ficou desorientado sem saber como voltar para sua casa. O calor fora de época estava deixando-o atordoado.
Finalmente reconheceu a velha banca de jornais do Alceu, seu grande amigo há mais de cinquenta anos. Mas lá estava um rapaz alto, bigodes finos, magrela, olhos fundos, cabelo espetado para os céus. "Esta não é banca do Alceu?", perguntou ao jovem. "Era. Meu avô morreu há uns oito anos." Prazeres se deu conta de há quanto tempo não visitava o amigo. Resmungou triste com um pesar notório sobre seus ombros, mas encontrou forças para perguntar ao jovem onde ele poderia colocar uma carta nos correios. "Carta escrita?", perguntou o incrédulo rapaz. "Sim, meu jovem". E retirou o envelope amassado que jazia em seu bolso interno do paletó. "Meu senhor, isso de cartas escritas e correios não existe mais. Ninguém escreve mais cartas. E as remessas de qualquer encomenda são colocadas nas caixas coletoras dentro dos prédios e retiradas todos os dias pelo sistema a vácuo".
Prazeres ainda tentou balbuciar uma ou duas palavras, mas seus lábios tremeram, foi ficando roxo e não saiu uma única voz.
Enquanto pensava desolado como faria para que aquela carta-memória chegasse às mãos da sua bisneta, caiu morto dentro da banca de jornais.
O jovem jornaleiro recolocou a carta dentro do bolso do paletó de Prazeres. Suas memórias foram enterradas com ele.

4 comentários:

Anne M. Moor disse...

Que triste chegar a isto... Por isso minha recomendação é viva intensamente o hoje e diga aos seus amados que os ama todos os dias!

Aiiiiiiiii Carlos Eduardo, tadinho! Mas teu texto um belíssimo exemplo do que fazemos de nossas vidas!

Bjos
Anne

IsaBele disse...

Como era bom escrever cartas e postá-las nos correios! E esperar por elas tbm...
Creio que esse tempo já acabou, mesmo aqui em 2010. A pressa e a tecnologia não mais permitem essas esperas. Mas como disse a moça aí de cima, precisamos dizer-nos para as pessoas o quanto antes, pois de amanhã ninguém sabe... E que bom que existe outros meios de nos comunicarmos nos dias de hoje!

Adorando passar por aqui!

Abçs!

Ana Carolina Nunes disse...

Fiquei com pena do Prazeres, além de ter partido desse mundo desiludido com a nova realidade, não conseguiu realizar seu último e singelo desejo. Mais pena ainda fiquei de Clarice... nunca terá a riqueza das memórias enterradas.
Beijos!

Adriana disse...

Em seu conto, o fim me pareceu um mundo sem rosto. Sem inscrição. O deslocamento do mundo de "Prazeres" foi uma sutil e lindíssima imagem literária sobre 2012.
Adorei, Eduardo.
Bj
Adriana.